Childville

Quanto riso! Oh, quanta alegria! A graça da pacata cidade fazia o amarelado chão sem asfalto ser belo e acolhedor. Acolhia a criançada de corpo e de alma servindo também para base da pouca vegetação presente. A surrealidade era realidade, porque apesar de tudo se apresentar em cores, havia distorção de tonalidades como se fossem afetadas por um engenhoso programa de computador.

Um dia eu soube o que era o vivo propriamente dito. Assim estava o ambiente unido ao tempo comum das águas correntes do rio com as evaporadas do varal. Deixei de lado minhas teimosias e não tive medo de fazer parte daquilo tudo. Fui! Razão para sentir medo não podia ter mesmo. Logo notei que a cabocla do sotaque encantador era um detalhe perto da imensidão de prazeres vistos naquela terra tão serena. Há tempos acostumado com minha cercania humana, busquei euforicamente por um culpado. O estranho é que pessoas ignoravam minha existência dentre os becos ensolarados.

A criançada espalhada era o motor da cidade. Só sabendo disso que também fui perceber que eu era elas ou elas, eu. Não sei. A cidade que pertencia ao Estado de Transe era de ninguém, apenas dela mesma. Deusa da vida.

A Metaliguagem ou A Aula dos Redatores

Ela parece que tá com o dedo no nariz. É esse o sentido, né? Foi o fotógrafo que quis.

Aquilo fica registrado e só não exala pra quem não lê. Antes ali não havia palavras e então alguém começou a simbolizar. Cada um tem uma bola diferente na cabeça. O diferencial é conseguir a persuasão.

E ao terminar:

A vida é muito mais que os dias, que os deuses, que os jornais.

FUU…

Contagem regressiva: 24 horas

  • Lavar casa
  • Lavar roupas
  • Passar roupas
  • Fazer comida
  • Lavar a louça
  • Estudar
  • Fazer trabalhos da universidade
  • Trabalhar na universidade
  • Pagar seja lá o que for
  • Aguentar o ser humano
  • Preocupar com o ser humano
  • Tomar banho
  • Comer
  • Beber água
  • Dormir

Eu sou um poço de felicidade!

Out-flow

O que hoje me preocupa não são as suadas tentativas de obter a “glória para o sucesso do pós-ensino médio”. Agora os choros são outros e mais intensos. Depois de ter passado o ritual, os resquícios dessa glória até resistiram um bom tempo, mas foi só uma máscara que cobria a angústia e o descontentamento. A distância geográfica como principal obstáculo causa tremedeiras além das comuns. As ondas que vibram meu cérebro incomodam muito. Nunca amei e odiei o ser humano tanto como agora. Nunca desejei que o tempo parasse e voasse no mesmo instante. O limite está chegando. Na verdade já chegou, pois eu é que dei um jeitinho de deixar pra depois.

Cada vez mais sinto nojo da perfeição, do politicamente correto, das boas maneiras ditas por sei lá quem como metas de um viver digno. Ainda tenho que tirar forças pra suportar o cheiro de todo esse lixo. Se tento minimizar, acaba se maximizando. Como então segurar? Essa é a pergunta na qual respondida, pode inverter os pólos dessas malditas ondas vibradoras.

Prato do dia: pipoca

O certo é que não era mais uma personagem e a rua não era apenas um cenário (ou era?). Aquele indivíduo que passava sobre o piche duro e velho suava mistério. Enquanto havia movimento, também havia paralisação. A explicação pode ser dada pela temperatura nada carnavalesca, mas apesar de parecer lógica essa argumentação, não se aplicava ao contexto.

Ele sabia. Sentir as pupilas dilatarem no ritmo e fluxo das batidas do coração era sinal de contentamento ou frustração. Nessa conjuntura ficamos com a segunda opção. Porém como só ele entendia, o desentendimento ficava para o lado oposto. Mistérios são confusos, principalmente para os impacientes que já os denominam de chatices. Eu que não estava naquela rua e em rua nenhuma, aliás, estava sim em muitas ruas ao mesmo tempo – não digo como alguém dos tipos de todos os seres concretos, mas como um abstrato quase onipresente. Pois então… Eu entrei e disseminei e gozei e aproveitei. Quando a raiva invade, existe uma onda de sensações fazendo surgir seja em quem for, comportamentos bem distintos. No caso do pedestre, eu me alimentei – e como! Ele não sentia fome nem frio. Apenas caminhava se orientando na intensa escuridão.

Aquela vida se inquietava no breu congelante. Dava pra sentir o cheiro da pipoca estourando em nitrogênio líquido.

Lá vem ele

O Sol dessa cidade é incansável. Quando do leste vem surgindo, já não se pode esconder a persistência do desejo de iluminar os mais obscuros becos e porões. As corujas da minha rua sabem bem disso. É luz que dói os olhos, dói na pele. Se fosse de sua ‘graça’ só a doação da luz, o incômodo seria irrelevante. O pacote de presentes da grandiosa estrela não é tão simples. E que presentes ela me deu! Justo para mim que ousou subestimar essa força inimaginável.

Palmas sofre. Já não bastasse o Sol fazer a felicidade das janelas, há um ambiente que faz desanimar qualquer pedestre  a atravessar suas largas avenidas. O calor inédito para anfitriões e forasteiros é notável – claro que é! Pensando bem, é bom que meus lábios trincados não convivam com a umidade roubada pelo lago. Seria pior suar minhas roupas e não vê-las secar meia hora após a lavagem. Essa sensação nada comum perdura até a estadia da Lua. Realmente é uma força inimaginável, sufocante.

Mas não iria embora sem me dar o melhor presente. Ou melhor, o único bom presente. A impressão é que ele sabe do seu tempo de partir e ainda sim insiste em ficar por mais alguns instantes. O show nunca acaba enquanto o artista está no palco. No adeus de mais um dia, o Sol abençoa a cidade das rotatórias gigantes com um fascinante abraço de vida. O melhor abraço que recebi.

Doçura despercebida

Não era à toa que a sedução estava ali. Fazia-se presente no sorriso, na seriedade e também no silêncio. Quem não sabia disso? Mas sempre há um primeiro motivo que nos faça ficar hipnotizados. Ela desfrutava da fala. E não era só som, era melodia. O contágio imediato provocava risadas e até imitações, porém jamais por mau gosto. A dona da virtude estava então incomodada. Cara feia pra lá, braços cruzados pra cá. Mesmo assim, ele – o seu pertence mais valioso, não dava adeus tão facilmente. Deve ser um método utilizado por seu cérebro para fazer social com sucesso. Na verdade nem sei se esses métodos existem.

A cabocla se revoltava com a brincadeira alheia. Apenas não percebia o encanto que seu sotaque proporcionava.