Arquivo do mês: outubro 2012

Tons de pele

Eu estou tonto. Os olhos passeiam sem qualquer sincronia com o cérebro. Esse embaraço pode parecer distúrbio espiritual, mas não. É fome. Nutrir o peito e deixar a fome é o desenho-projeto das íntimas substâncias do meu mais cavado interior. Esse interior não se alimenta apenas de sorriso, voz ou imaginação. O principal componente para que toda minha vitamina fique saborosa é o calor proveniente do toque.

Quero o sabor e o cheiro do unido para expulsar a tontura!

Do distante vem o estímulo. Do daqui permanece a indiferença. Eu não queria narrar o abatimento, pois seria injusta alguma sensação de culpa por qualquer tentativa minha de emitir um sinal de pesar. Só que a fome persiste. Cá estou a vestir-me de aflito a cada caminhar do tempo. Não faz sentido dizer que morte me seria causada por essa fome, pois a própria fome já é o incentivo do prosseguir. Se há fome, sempre haverá o apetite e nunca o abandono. Por ora, me caso com a espera. Uma vez me disseram que o tempero mantém a luz inflamada. Alguma faísca pode sim sair, mas só será claridão se o tempero vier acompanhado com tons de pele.