Prato do dia: pipoca

O certo é que não era mais uma personagem e a rua não era apenas um cenário (ou era?). Aquele indivíduo que passava sobre o piche duro e velho suava mistério. Enquanto havia movimento, também havia paralisação. A explicação pode ser dada pela temperatura nada carnavalesca, mas apesar de parecer lógica essa argumentação, não se aplicava ao contexto.

Ele sabia. Sentir as pupilas dilatarem no ritmo e fluxo das batidas do coração era sinal de contentamento ou frustração. Nessa conjuntura ficamos com a segunda opção. Porém como só ele entendia, o desentendimento ficava para o lado oposto. Mistérios são confusos, principalmente para os impacientes que já os denominam de chatices. Eu que não estava naquela rua e em rua nenhuma, aliás, estava sim em muitas ruas ao mesmo tempo – não digo como alguém dos tipos de todos os seres concretos, mas como um abstrato quase onipresente. Pois então… Eu entrei e disseminei e gozei e aproveitei. Quando a raiva invade, existe uma onda de sensações fazendo surgir seja em quem for, comportamentos bem distintos. No caso do pedestre, eu me alimentei – e como! Ele não sentia fome nem frio. Apenas caminhava se orientando na intensa escuridão.

Aquela vida se inquietava no breu congelante. Dava pra sentir o cheiro da pipoca estourando em nitrogênio líquido.

Lá vem ele

(Fotógrafo, identifique-se)

O Sol dessa cidade é incansável. Quando do leste vem surgindo, já não se pode esconder a persistência do desejo de iluminar os mais obscuros becos e porões. As corujas da minha rua sabem bem disso. É luz que dói os olhos, dói na pele. Se fosse de sua ‘graça’ só a doação da luz, o incômodo seria irrelevante. O pacote de presentes da grandiosa estrela não é tão simples. E que presentes ela me deu! Justo para mim que ousou subestimar essa força inimaginável.

Palmas sofre. Já não bastasse o Sol fazer a felicidade das janelas, há um ambiente que faz desanimar qualquer pedestre a atravessar suas largas avenidas. O calor inédito para anfitriões e forasteiros é notável – claro que é! Pensando bem, é bom que meus lábios trincados não convivam com a umidade roubada pelo lago. Seria pior suar minhas roupas e não vê-las secar meia hora após a lavagem. Essa sensação nada comum perdura até a estadia da Lua. Realmente é uma força inimaginável, sufocante.

por Bruno Rangel Cesar

Mas não iria embora sem me dar o melhor presente. Ou melhor, o único bom presente. A impressão é que ele sabe do seu tempo de partir e ainda sim insiste em ficar por mais alguns instantes. O show nunca acaba enquanto o artista está no palco. No adeus de mais um dia, o Sol abençoa a cidade das rotatórias gigantes com um fascinante abraço de vida. O melhor abraço que recebi.

Doçura despercebida

Não era à toa que a sedução estava ali. Fazia-se presente no sorriso, na seriedade e também no silêncio. Quem não sabia disso? Mas sempre há um primeiro motivo que nos faça ficar hipnotizados. Ela desfrutava da fala. E não era só som, era melodia. O contágio imediato provocava risadas e até imitações, porém jamais por mau gosto. A dona da virtude estava então incomodada. Cara feia pra lá, braços cruzados pra cá. Mesmo assim, ele – o seu pertence mais valioso, não dava adeus tão facilmente. Deve ser um método utilizado por seu cérebro para fazer social com sucesso. Na verdade nem sei se esses métodos existem.

A cabocla se revoltava com a brincadeira alheia. Apenas não percebia o encanto que seu sotaque proporcionava.

Uh Uh Uh, La La La, Ié Ié!

As pessoas têm que acreditar
Em forças invisíveis pra fazer o bem
Tudo que se vê não é o suficiente
E a gente sempre invoca o nome de alguém

– John Ulhoa

Feito de som

Oba!

Está comigo. Juntinho. Enquanto os girassóis estiverem olhando para o mais alto azul, a suposta tentativa de um fim não será possível. As transeuntes sensações só acabam enchendo os pulmões da complexidade humana. O meu está prestes a estourar, mas não passa do quase. Isso é bom. Se passar, deve haver uma maneira de absorver o que foi lançado e recomeçar com mais resistência e elasticidade. É claro que deve haver! São tão saborosas… Podem ser desordenadas essas canções. O dever da metrificação é um insulto. Em qualquer situação, perceber ruídos é reconhecer o movimento das leves e intensas vibrações da matéria.

Oba!

É quente. Capaz de fazer brotar aquelas dúvidas nas cabeças dos incansáveis buscadores de soluções. Onde foi o primeiro segundo? Talvez antes do segundo já estivesse juntinho de mim. É que a bendita sempre foi esperta. Cansaço não existe ali. Eu agradeço sem pensar e vivo mais vivo.

Disparos sem receios são de grande valia. Isso que importa.

Olhe para esses prendedores

Tudo bem. São objetos que todo mundo usa para prender a roupa no varal, não sentir um mal cheiro qualquer e várias cositas más. Ou seja, mais uma daquelas ideias óbvias geniais da humanidade. Mas o propósito dessa postagem não é apresentar a utilidade dos prendedores. Aliás, isso nem é necessário dizer. Se torna redundante.

Então vamos lá! Há seis prendedores de cores diferentes na imagem. Esquerda para direita: verde, amarelo, laranja, rosa, roxo e azul. Alguém discorda? A não ser um daltônico e uma mulher que consegue enxergar trocentas tonalidades de uma cor simples, é claro. Eu vi essas cores e você também.

Um dos maiores imbróglios que minha cabeça ainda não pôs em ordem é  essa questão das cores. O azul que vejo é o azul que outra pessoa vê? Talvez ela veja o azul dela como eu vejo o meu verde. Antes que pense qualquer bobagem, isso não é daltonismo! Pode ser complicado de início, mas é só pela estranheza do assunto.

Será mesmo realmente amarelo o sol e azul o céu? Por que não ser lilás, vermelho…? Cego – Móveis Coloniais de Acaju

Me deixa tentar explicar melhor. ISSO é roxo para mim e para todos. Toda criança aprendeu que ISSO tem nome de roxo. Mas ela pode ver ISSO da maneira que aprendi que ISSO é verde. Não tem como descrever as cores. É impossível. Podem dizer que o amarelo é a cor do ouro, da gema do ovo. Isso é fazer comparações, não é pegar um lápis e escrever a forma de uma cor ou desenhá-la. Diretamente ou não, ela é sempre vinculada a algo material. Basta procurar no dicionário e entender o que digo.

Já li sobre a frequência das cores. Em um laboratório é possível identificar tal cor pela sua frequência. E quem garante que os olhos de 6 bilhões de pessoas identificam essas frequências de modo igual? Pode ser que sim, ué. Então pensei nos transplantes de retina. Se é ela quem capta as imagens, o transplantado iria perceber a mudança no mesmo instante. Mas não. A captação da luz pela retina não é o fim do percurso. A luz ainda é transformada em impulsos nervosos que atingem o cérebro. Ou seja, não é o seu olho que vê, é o seu cérebro.

Não faz sentido?

Margarina x Inteligência

Até parece que ela ia parar. De nada adianta a insistência quando o decidido já foi realizado. Sabia sim que aquilo já passava de qualquer fronteira. “Deixa a menina estar!” Mas não. A infortunada massacrava a gordinha de um jeito quase intencional. Dizia de tudo. O assunto se desenrolava desde o processo de fabricação das margarinas, passando pelos efeitos colaterais e terminava nos rejeitos que a sociedade fundaria. Como era fato consumado, a sagaz e cansativa de todo aquele lero-lero já nem queria mais dar atenção àquelas súplicas sem fundamento. Só interessava-lhe seu próprio alimento e suas ideias. Ideias essas que, mesmo fora de contexto, eram fabulosas. Coisa de se respeitar e obter admiração.

Rosana sempre apreciava seu café da manhã. Ainda bem que as gorduras trans nunca subiram pra cabeça.